É interessante compreender como o fenômeno turístico adquiriu as características que tem hoje e como foi analisado em seus primeiros anos, no século XIX. Os dados que temos investigado nos mostram que os primeiros autores de turismo eram, também, profissionais do setor. Alguns deles ajudaram a fundar, em distintos lugares, clubes de montanhismo, de caminhadas, touring clubs, de esportes na neve ou mesmo associações de classe ou de empresários ligados ao turismo.
O setor público pouco ou nada fazia pelo turismo no século XIX, pois haviam outros temas emergentes. Então esses profissionais se uniam e publicavam guias, organizavam eventos, debatiam o tema dos “forastieri” (forasteiro, estrangeiro - italiano) e do fremdenverkehr (turismo, tráfego de forasteiros – alemão). Foram eles também que começaram a sistematizar os primeiros conhecimentos técnicos e teóricos sobre a área. Tal conhecimento, por mais simples que tenha sido em sua origem, formou a base do conhecimento sobre o fenômeno turístico existente.
Conhecer a origem dos primeiros estudos sobre o turismo não é olhar para o passado sem perspectivas presentes. Trata-se de buscar aquilo que mais impressiona e difere o ser humano dos animais: o conhecimento, o saber.
Saber a origem de tal conhecimento, seu processo de formação e como influenciou os autores e a própria atividade turística daquele momento e no momento atual, é maravilhar-se com o que ainda está encoberto por uma nuvem de ignorância histórica no campo das teorias do turismo. Este é o motivo pelo qual advogo por uma visão crítica da produção do conhecimento turístico, na busca da construção de conhecimentos fundamentados numa realidade, mental ou material, e na constituição de conhecimentos críticos da área.
Portanto, voltar os olhos e pensamento para os fundadores do pensamento técnico-científico em turismo, não é se prender ao passado; não é ignorar as propostas presentes; não é dizer não à atualidade, ao contrário: é buscar compreender o passado; é buscar entender o pensamento presente; é buscar entender a atualidade; é dizer que somos atores de nossa história; é atribuir ação e significado à nossas atitudes atuais.
Assim, voltando à pergunta que abre este texto, creio que a importância de se conhecer a origem do conhecimento no campo do turismo, para alguns pode ser pura perda de tempo; para outros, passatempo acadêmico; para outros mais, elucubração pseudo-intelectual. Mas, na verdade, para aqueles que se admiram e se entusiasmam com a descoberta do novo (mesmo que esse novo, temporalmente seja velho) a busca de tal conhecimento constitui-se em total completude e realização de eudaimonia. É filosofia, em sua raiz mais original: amor ao saber, simples e puro, sem a pressão do produtivismo e do utilitarismo moderno que macula parte da atual investigação científica em turismo e em várias outras áreas do saber.




