O HAT não é um arquivo qualquer. Trata-se do centro de documentação em turismo mais rico que tive a oportunidade de conhecer. São ao menos 500 metros de prateleiras cheias, totalizando, numa conta estimada, 50 mil documentos originais.
No HAT estão todos os números da primeira revista científica de turismo, a Archiv für dem Fremdenverker, que era coordenada pelo brilhante professor Robert Glücksmann. A revista, trimestral, foi publicada entre abril de 1930 e março de 1935 – foram 20 números no total. Além disso, há uma caixa arquivo repleta de correspondência original entre Glücksmann e seu assistente mais próximo, Adolf Grünthal e entre este último e outros colaboradores, inclusive com Walter Hunziker, primeiro diretor da AIEST. Glücksmann morreu no campo de concentração de Theresienstadt, em 1942, junto com sua mulher Käthe. Os atestados de óbitos dos dois, originais, emitidos pela Cruz Vermelha Alemã, também estão ali.
Há também uma seção de guias de viagens antigos, inclusive mais de uma centena de Baedakers, inúmeros do século XIX; há outros guias azuis e outros vermelhos, igualmente antigos. A seção de literatura de viagem também chama a atenção pela antiguidade dos livros, pelo estado de conservação e pela raridade da coleção.
Uma das mais espetaculares e antigas coleções estatísticas de turismo está ali. Trata-se de um estudo alemão, que em alguns anos chegou a publicar 7 tomos estatísticos. Tomos grandes, enormes. Verdadeiras bíblias.
A parte de folders de viagens é espetacular. Está, grande parte, catalogada e guardada em caixas arquivo. Se um pesquisador quiser saber quais eram os destinos que faziam publicidade no entre guerras, pode recorrer a uma dessas caixas que ali encontrará o material.
A seção mais sui generis é a de álbuns de viagens. Segundo informou o prof. Spode, era comum os alemães viajaram e ao regressarem confeccionarem álbuns de viagens, colando as passagens utilizadas, fotos, pequenos papéis com anotações, impressões sobre a comida ou hotel, etc. Para um historiador da Escola Nova, certamente esse é um “prato cheio”, e delicioso.
Agora, o mais interessante, aos meus olhos, são os livros de teoria do turismo ali disponíveis. Ao contrário do muitos pensam, não foram os anglófonos os criadores das primeiras teorias de turismo, mas sim os germânicos, o que inclui os suíços, austríacos e, logicamente, os alemães (1). (Os italianos e espanhóis também têm seu grau de participação neste processo). Nesta seção, estão autores que publicaram estudos com sólido embasamento sociológico, econômico ou jurídico, desde fins do XIX até meados do século XX. Ali está um livro que clama pela organização do turismo na Alemanha, de 1902, outro de teoria jurídica do turismo de 1919, outro mais de gastronomia e turismo de 1917; outro sobre o ensino do turismo de 1931… Trata-se de uma preciosa biblioteca dos pais fundadores das teorias do turismo.
O livro mais antigo do arquivo é um relato de viagens, publicado em alemão, de 1661, mas também há muitos, muitos livros de teoria do turismo dos anos 1950 até os dias atuais. Esses também são preciosos, pois foram os que sedimentaram grande parte do conhecimento em turismo produzido no entre guerras.
O HAT conta com a maioria de seu material em língua alemã, mas há também materiais em francês, inglês, espanhol e outros idiomas, mas em menor quantidade. Sua visita é aberta a pesquisadores interessados, com agendamento de horário previamente feito. Não é permitido fazer cópias em máquinas de xerox dos livros e demais materiais, mas é permitido levar máquina fotográfica para fazer fotos do material que se busca.
Sem dúvida, o HAT é um dos grandes acervos que temos à nossa disposição, mas, infelizmente, segundo informações do próprio prof. Spode, o futuro do arquivo é incerto. Provavelmente será fechado em fins deste ano. Provavelmente – isso ainda não está confirmado! Caso seja fechado, ninguém sabe para onde irão os materiais ali armazenados, e tampouco o que será feito deles.
Este pode ser outro triste exemplo da (des)valorização histórica do fenômeno turístico. Esperamos e torcemos para que isso não aconteça.
Publicamente parabenizo o prof. Hasso Spode por seu empenho gratuito na manutenção do Historisches Archiv zum Tourismus. Seu trabalho, sem dúvidas, é um exemplo de boa prática acadêmica. Agradeço também a ele a forma que me recebeu e todo o auxílio oferecido para que eu pudesse encontrar os materiais históricos e teóricos que buscava.
Para interessados, o site do HAT é: http://hist-soz.de/hat/archiv.html
(1) Sobre esse tema, no qual é feita uma crítica muito sólida a alguns pesquisadores anglófonos do turismo, recomendo o artigo recentemente publicado de Graham M. S. Dann: Anglophone hegemony in tourism studies today. In: Enlightening Tourism. A Pathmaking Journal, 01 (2011). Disponível em: http://uhu.es/publicaciones/ojs/index.php/et/article/viewFile/1017/1521. Recomendo também o livro: Dann, G. and Liebman Parrinello, G. The Sociology of Tourism: European Origins and Developments. Bradford: Emerald Press, 2009. (Especialmente a parte em que se discute a supremacia do idioma inglês nos estudos turísticos).





comentarios
Mis felicitaciones por compartir esta imformación.
Trabajo en la esfera de las investigaciones turísticas desde hace más de 10 años.
Soy de origen cubano y radico en México en estos momentos. Mi área es la Inteligencia de Mercados y la Inteligencia Organizacional o Empresarial.
Difícil es aún que acepten que en el turismo hay ciencia, pero lo lograremos.
José Miguel
Muito obrigado por seu comentário!
Creio que o importante é o avanço da produção séria e com elevada qualidade no tema do turismo!
Abraços!
Alexandre